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Fernando Ilharco 23 de Março de 2017 às 21:15

Uma má metáfora

Os povos do Sul da Europa, aliás os povos do Sul em geral, têm temperamentos mais calorosos, mais relacionais e grupais do que os povos do Norte, geralmente, mais frios, distantes e individualistas.

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Se tivesse usado outra metáfora - como, por exemplo, a de que não se pode ter sol na eira e chuva no nabal ou a conhecida máxima que diz que não se pode ficar com o bolo e comê-lo ao mesmo tempo - talvez toda a gente tivesse compreendido melhor o que Jeroen Dijsselbloem, o presidente do Eurogrupo, queria dizer. Disse que na crise do euro, os países do Norte se mostraram solidários para com os países em crise, mas que quem recebe essa solidariedade também tem obrigações e não pode gastar o dinheiro em copos e mulheres e depois pedir ajuda.

 

Ao usar a metáfora que usou cometeu dois erros. O primeiro é o tipo de linguagem e o seu carácter sexista. O segundo é o facto de muito boa gente não ter entendido o comentário como uma metáfora; e de Dijsselbloem, possivelmente, não ter pensado nisso.

 

Os povos do Sul da Europa, aliás os povos do Sul em geral, têm temperamentos mais calorosos, mais relacionais e grupais do que os povos do Norte, geralmente, mais frios, distantes e individualistas. As investigações do sociólogo holandês Geert Hofstede há muito estabeleceram este facto. A História, seguramente, mas também a geografia e o clima são motivos para que as coisas sejam como são.

 

Sobre o clima, por exemplo, em artigo publicado na revista Science (Vol. 322 N.º 5901 p. 606-607) mostrou-se como o calor e o frio físicos podem aumentar os sentimentos de calor e frieza interpessoal, sem que a pessoa se aperceba. Numa outra experiência, sobre escolhas de presentes, constatou-se que quem levava consigo uma almofada quente tinha maior propensão para escolher um presente para um amigo, e não para si próprio, do que quem levava uma almofada fria. Noutras investigações ainda, publicadas na revista Psychological Science (n.º23, p.472-474 e n.º19, 838-842), a temperatura quente exterior foi associada à intimidade e o isolamento social à temperatura fria exterior. E não é metáfora. O artigo sugere que de um ponto de vista psicológico se pode mudar a percepção de intimidade através do calor físico e vice-versa.

 

Um dia poderá considerar-se de forma sistemática as vantagens e as desvantagens que a geografia e o clima podem trazer à situação de cada país e de cada povo no quadro de um dado modelo de competição global. Poderá ser então razoável equacionarem-se políticas europeias e globais para apoiar os países que por razões geográficas e de clima tenham uma tendência para gastar tudo em "copos e mulheres", metaforicamente falando.

 

Professor na Universidade Católica Portuguesa

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