Isabel Stilwell
Isabel Stilwell 14 de janeiro de 2020 às 20:10

O negócio das barrigas de aluguer

A agência ucraniana publicitada numa reportagem da TVI, revela que as novas “servas de Sara” (a referência bíblica é deles), recebem 350 euros por mês, e um prémio de 13.500 euros no momento da entrega do bebé.

"Portugueses pagam 40 mil euros por barrigas de aluguer na Ucrânia" - ao título da reportagem da TVI correspondia o lamento da "obrigação" de os casais gastarem milhares de euros, e percorrerem mais de 4 mil quilómetros, para concretizarem o projeto de um filho. Aparentemente, o desespero provocado pela nossa legislação não deixa outra opção, senão a de entrar num negócio de exploração do corpo das mulheres e da compra de seres humanos. Com o regresso à AR da discussão da nova proposta de lei sobre a maternidade de substituição, a reportagem revelava-se um tempo de antena para os que são a favor da mudança da lei, inclusive donos de clínicas não identificados como tal,  sem a mais pequena sombra de contraditório.

 

Mas a reportagem ia mais longe - dava a conhecer uma agência de barrigas de aluguer ucraniana, com direito a nome e a uma hora de publicidade aos seus serviços, um crime à luz da lei portuguesa, mas certamente que o Ministério Público sintonizava outro canal. Falou a empresária e falaram duas "gestantes de substituição" - "meros recetáculos," no dizer das próprias - que nos deram conta de que o seu único desejo era o de verem outras mulheres felizes. Tudo pintado a rosa, sem uma única questão que levantasse o véu do que realmente representa este retrocesso civilizacional gritante. Aliás, quando visitamos o site da agência, são os próprios que o admitem, recorrendo logo na primeira linha ao Antigo Testamento para sancionar o que fazem:  "Usar uma mãe de substituição para ter uma criança para um casal com problemas de fertilidade é tão antigo como a história de Sara e Abrão, no Génesis, capítulo 16. Agar, a serva de Sara, concebeu um filho de Abrão e entregou o bebé a Sara", escrevem, sem contarem como acabou a história para não afugentar os clientes.

 

Por outras palavras, as servas de Sara na versão século XXI, graças aos avanços da medicina, são portadoras de embriões com 100% do ADN daqueles que pagam a conta. Dos 40 mil euros pelo "pacote", como descreveu a empresária, sobram 350 euros por mês para a mulher que aluga o seu T0 durante nove meses, com uma compensação final - a receber depois do serviço cumprido, evidentemente - de 13.500 euros por uma criança, e 15 mil euros, no caso de serem gémeas. Talvez conviesse lembrar o espetador que o salário mínimo na Ucrânia é de uns míseros 112 euros, tornando incrivelmente aliciante esta nova categoria profissional no país mais pobre da Europa. Mas ninguém o fez.

 

A equipa de reportagem nem terá lido também a informação no site da agência, como no de muitas das suas congéneres, porque senão ter-nos-ia certamente explicado porque estavam estas duas mulheres na mesma casa. Ou, então, pressentiam que reagiríamos mal a saber que é garantida ao cliente a vigilância apertada destas grávidas, que a partir dos sete meses de gestação passam a modo de "prisão" num apartamento da agência, de forma a garantir que o "produto" está nas melhores condições no ato da entrega.

 

A peça da TVI incluía mais um capítulo, o de como transformar esta ilegalidade aos olhos da lei portuguesa (na Ucrânia é permitida, ou não fosse uma fonte de divisas) em legalidade em Portugal. Aparentemente é tudo muito simples, e tivemos direito inclusivamente à confirmação por parte de um juiz, que se apressou a garantir que estas manigâncias até contam com uma celeridade judicial invulgar. Melhor, só mesmo o psicólogo, que questionado sobre os potenciais efeitos na mulher que dá à luz um bebé de quem é para sempre separada, afirmou que pode haver um processo de luto, mas tranquilizou-nos dizendo que era coisa para não durar mais do que um ano.

 

Ficam-me de tudo isto duas questões, sem resposta.

 

A primeira, qual é a honestidade intelectual dos especialistas e políticos ouvidos na reportagem, que acerrimamente defendem que a lei portuguesa nunca, em tempo algum, admitiria o pagamento às grávidas de substituição, mas dão o seu beneplácito a que casais portugueses explorem mulheres, apenas porque não são portuguesas.

 

A segunda é que tipo de esquizofrenia permite que se defenda, em simultâneo, que uma grávida que transporta durante nove meses o "material genético" de outros não cria com o bebé qualquer relação, porque "o bebé não é seu", mas no caso de uma gravidez que resulta de procriação médica com recurso a dador, argumenta que mãe é a que dá à luz, e a genética não conta nada, batendo-se inclusivamente para que a pessoa assim gerada não tenha direito a conhecer as suas irrelevantes origens biológicas?

 

Decididamente, a desonestidade intelectual é o pior dos cancros, e com tudo isto, ainda nem começámos a falar do superior interesse destas crianças. 

 

Jornalista

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