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João Carlos Barradas - Jornalista 13 de Maio de 2014 às 18:59

O mar chinês

Pequim passou a impor a reivindicação de soberania plena sobre praticamente a totalidade do Mar do Sul da China e vê chegada a hora de arredar a memória de todas as humilhações impostas a partir de meados do século XIX.

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A luz verde das autoridades de Hanói para greves e manifestações de protesto em fábricas de empresas da República Popular e de Taiwan no Vietname é o último sinal numa escalada de confronto nas disputas fronteiriças no Mar do Sul da China.

 

O envio por Pequim de uma plataforma petrolífera, escoltada pela marinha de guerra, para as Ilhas Paracel motivou protestos de Hanói, gerou espectaculares trocas de jactos de água pressurizada, e, sobretudo, demonstrou que a República Popular da China considera ter condições para impor unilateralmente as suas reivindicações territoriais. 

 

A chegada no início de Maio da plataforma e de um navio para instalação de dutos submarinos de testes sísmicos é sinal de que a CNOOC (a empresa estatal chinesa de exploração "off shore")  passou a dispor de aptidão tecnológica para operar dispensando parcerias internacionais (em particular depois da aquisição em 2012 da canadiana NEXEN por 15,1 mil milhões de dólares).

 

Tal como no caso do submersível "Jiaolong", que em 2010 baixou a 3759 metros para colocar uma bandeira chinesa no leito do Mar do Sul da China, as novas capacidades tecnológicas (a plataforma HD-981 foi previamente testada ao largo de Hong Kong na jazida de gás de Liwan) servem para marcar posição numa disputa política.

 

Tecnologia e política

 

A colocação da plataforma em águas reclamadas pelo Vietname teve lugar logo após a visita a Tóquio, Seul, Manila e Kuala Lumpur de Obama para reiterar compromissos de segurança com os aliados regionais de Washington e coincidiu com uma cimeira na capital da Birmânia/Myanmar da "Associação das Nações do Sudeste Asiático" (ASEAN).   

 

Os litígios fronteiriços que opõem Pequim (e por arrasto Taiwan que partilha as mesmas reivindicações) ao Vietname, Filipinas, Malásia, Indonésia e Brunei racha ao meio a ASEAN, inoperante como fórum de mediação, e têm o seu contraponto nas disputas marítimas com a Coreia do Sul e o Japão.

 

Pequim assume a iniciativa em matéria de imposições territoriais - ao invés de protestar contra alegadas afrontas como no caso da nacionalização pelo Japão em 2012 de três ilhas das Senkaku/Diaoyu na posse de particulares -  e exigiu, por exemplo, a partir de Novembro do ano passado, a identificação para sobrevoo civil numa "Zona de Identificação para Defesa Aérea" de áreas disputadas com Seul e Tóquio.

 

Os incidentes com Manila sucedem-se, por seu turno, nas águas meridionais disputadas pelos dois estados, mas o conflito com Hanói (que não partilha tratado de defesa com Washington) assume contornos potencialmente mais virulentos.

 

O Vietname assegurou historicamente a sua independência em oposição à China e as ilhas que o então governo de Saigão, aliado de Washington, controlava nas Paracel (Xisha em chinês e Hoang Sa em vietnamita) foram ocupadas pela China após um confronto militar em Janeiro de 1974.

 

Hanói depois da reunificação e do avolumar das tensões com Pequim que se saldaram por uma guerra em 1979 e novos confrontos militares em 1988 nas Paracel passou a reclamar a soberania, mas a China controla de facto a área que desde Julho de 2012 está sob a jurisdição da prefeitura de Sansha (englobando também as Ilhas Spratly) da província de Ainão.

 

Comércio, pesca e hidrocarbonetos

 

A resolução pacífica das reivindicações nacionais ao abrigo da "Convenção das Nações Unidas sobre o Direito do Mar", de 1982 - cujo respeito os Estados Unidos advogam a todos os protagonistas dos conflitos fronteiriços apesar do Congresso norte-americano não ter ratificado o tratado - mostra-se cada vez mais difícil em águas de intenso tráfico comercial.

 

A exploração de reservas de gás que poderão cifrar-se em 190 triliões de metros cúbicos e 11 mil milhões de barris de petróleo, de acordo com estimativas da "Agência de Energia" dos Estados Unidos, tem vindo a intensificar-se em águas de ilhas e recifes onde eram tradicionais as escaramuças envolvendo pesqueiros de toda a região.

 

A "ExxonMobile" opera desde 2011 em Blocos concedidos por Hanói sob protesto de Pequim que já vinha a efectuar testes sísmicos no Bloco 143 reivindicado pelo Vietname e para onde enviou agora a plataforma HD-981.

 

A China cedera, por sua vez, em 1992 direitos de exploração à norte-americana "Crestone" em zonas alegadamente de águas territoriais vietnamitas.

 

Pequim passou a impor a reivindicação de soberania plena sobre praticamente a totalidade do Mar do Sul da China e vê chegada a hora de arredar a memória de todas as humilhações impostas a partir de meados do século XIX por ocidentais e japoneses e repor a devida hierarquia em que a hegemonia da China deve ser respeitada em toda a região.

 

Dois milénios de relações estreitas e frequentemente conflituais entre vietnamitas e chineses chegam agora a uma fase de confronto que mostra, essencialmente, a manifesta determinação da liderança de Pequim em fazer valer uma nova hegemonia. 

 

Jornalista

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