Jorge Fonseca de Almeida
Jorge Fonseca de Almeida 15 de março de 2016 às 20:15

A internet e o marketing

Perdemos o comboio da alfabetização no século XIX. Estamos a perder o comboio da revolução tecnológica. O pelotão da frente já deslocou e aproximamo-nos perigosamente da cauda da corrida. É tempo de acordar.

A escolha dos canais de distribuição adequados é uma peça essencial de qualquer estratégia de marketing bem-sucedida.

 

Nos últimos anos, a internet tem vindo, em muitos países, a afirmar-se como um importante canal de distribuição para muitos produtos e serviços.

 

Um estudo recentemente publicado pelo Eurostat constata que um terço dos portugueses nunca utilizou internet e que apenas 48% a usam numa base diária ou quase diária. Estes números aproximam-nos mais da Turquia (30%) ou da Roménia (32%) que estão na cauda do "ranking" do que da Islândia (91%), Noruega (86%) ou Suécia (81%) que o lideram. Dos portugueses que usam internet, apenas uma minoria a usa para fazer compras.

 

Este atraso pode também ser medido pela percentagem de empresas que usa internet para as suas compras. Na verdade, pouco mais de 10% das empresas efetuam pelo menos 1% das suas compras pela internet quando na Áustria esse número ultrapassa os 32% e na Finlândia, os 35%.

 

Este atraso empresarial na adoção das modernas formas de comunicação tem forte influência na competitividade internacional das empresas. Quanto mais baixa a incorporação tecnológica mais baixa a produtividade por mais horas que os portugueses trabalhem a mais do que os seus congéneres europeus. Os salários baixos não compensam o atraso tecnológico.

 

E mesmo que as empresas dominem a tecnologia, o que não se verifica, para poder tirar total partido delas é necessário que a grande maioria da população também a domine e a ela tenha acesso.

 

O mesmo estudo indica que apenas 10% da população consegue chegar ao nível 1 e 2 de capacidade de uso de computadores ("computer skills") numa escala de 0 a 6. Aqui estamos mesmo no fim da tabela a par com a Turquia.

 

Assim a enorme quantidade de portugueses infoexcluídos limita também a produtividade de muitas atividades que poderiam fornecer os seus serviços através da internet, mas não têm mercado online devido a esta forte limitação.

 

Algumas empresas estão a incorrer nos custos de desenvolver plataformas online apenas para descobrir que não há clientes que as permitam rentabilizar. Vários bancos, pressionados pelo peso do crédito malparado, estão a migrar os seus clientes para as suas plataformas da internet em que o custo de servir o cliente é mais barato. Trata-se de ação contraproducente já que muitos clientes regressam aos balcões e outros irritados mudam de banco.

 

É urgente um maior investimento na educação de adultos, na formação de pequenos e médios empresários, no mais alargado acesso à internet, na ampla divulgação destes estudos para que os poderes públicos estejam mais conscientes da necessidade de agir. Sem este investimento os ganhos impressionantes de produtividade que se estão a obter noutros países não poderão ser materializados em Portugal.

 

Perdemos o comboio da alfabetização no século XIX. Estamos a perder o comboio da revolução tecnológica. O pelotão da frente já deslocou e aproximamo-nos perigosamente da cauda da corrida. É tempo de acordar.

 

Economista

 

Este artigo está em conformidade com o novo Acordo Ortográfico

pub

Marketing Automation certified by E-GOI