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Saída de Centeno "fragiliza" governo. João Leão terá "menor autonomia"

O politólogo Azevedo Alves considera que a saída em simultâneo de Centeno, e do seu número dois, das Finanças fragiliza o governo, sobretudo dado o atual contexto de crise. Já o economista Paes Mamede antecipa como provável que João Leão tenha "menor autonomia" face ao primeiro-ministro do que sucedia com Centeno.

David Santiago dsantiago@negocios.pt 09 de Junho de 2020 às 17:21
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A saída de um dos trunfos políticos de António Costa e do ministro melhor avaliado nos diversos estudos de opinião não poderia deixar de fragilizar o Executivo. Por outro lado, o capital político do novo ministro das Finanças fica aquém do acumulado por Mário Centeno, o que deverá retirar autonomia a João Leão no relacionamento com o primeiro-ministro.

Estas são duas das ideias centrais transmitidas ao Negócios por um politólogo e um economista. Para André Azevedo Alves, a demissão de Mário Centeno das Finanças "não pode deixar de ser vista como uma fragilização" do governo.

Este professor do Instituto de Estudos Políticos da Universidade Católica considera ainda que o facto de também Mourinho Félix, secretário de Estado Adjunto e das Finanças, número dois de Centeno e apontado como hipotético sucessor, é um fator adicional de fragilização.

"É uma fragilização acentuada porque o número dois [das Finanças] também sai", diz notando que o "cenário mais provável, e de maior continuidade, seria a subida do número dois".

O docente realça que Centeno surgia há muito e de forma destacada como o ministro mais popular do Executivo socialista, pelo que apesar de António Costa tentar "relativizar a saída dando uma ideia de continuidade, que até certo ponto é verdadeira", a saída de um ministro das Finanças que, ao contrário da norma, conseguiu completar uma legislatura, não pode deixar de enfraquecer o governo.

Azevedo Alves aponta ainda um terceiro elemento de fragilização e que passa pelo "atual contexto, especialmente delicado, de uma muito grave crise económica, social e de finanças públicas".

"Centeno preparou o orçamento retificativo, mas não deixa de ser um ministro das Finanças a sair naquilo que será, muito provavelmente, uma das maiores crises das últimas décadas", sustenta sublinhando que ao contrário de outras ocasiões, desta feita é um "ministro credível e com bons resultados a sair, não é uma substituição de um ministro fragilizado".

Por seu turno, o economista Ricardo Paes Mamede não antecipa "grandes alterações na política orçamental" com João Leão ao leme das Finanças. "É alguém que esteve muito por dentro das orientações da política orçamental do governo", lembra.

O professor de Economia Política do ISCTE recorda ainda que Leão também participou no desenho do cenário macroeconómico que serviu de base ao programa eleitoral que o PS levou às legislativas de 2015.

Paes Mamede prevê antes uma mudança na relação entre o primeiro-ministro e o futuro titular das Finanças, agora mais inclinada a favor de Costa.

"O nível de senioridade de Centeno era maior e a posição relativa do novo ministro não será igual. O primeiro-ministro fica com mais espaço de manobra tendo um ministro como João Leão à frente. Isto não tem de ser relevante, mas pode ser relevante. A autonomia do novo ministro das Finanças tenderá a ser menor", prevê o docente do ISCTE.

Na mesma linha, André Azevedo Alves salienta que "Leão é uma solução de continuidade, contudo chega a ministro num contexto mais difícil e sem o capital político acumulado de Centeno".

Mas se Costa ganha autonomia na relação com as Finanças, perde no âmbito mais geral da governação. "Costa ficou com menor margem de manobra de gestão da crise. Com Centeno, o primeiro-ministro, nos tempos difíceis que vivemos, e que se aprofundarão, poderia sempre usar o capital de credibilidade acumulada de Centeno", conclui o politólogo.

Resposta à crise determina futuro de Costa
Ao longo dos últimos cinco anos da governação liderada por António Costa, a afirmação política e governativa do secretário-geral do PS foi também feita à custa do sucesso da política orçamental da equipa chefiada por Centeno no Terreiro do Paço, o primeiro ministro a alcançar um excedente em democracia.

Deste modo, importa perceber em que medida a saída de Mário Centeno, que também abandona a liderança do Eurogrupo a 13 de julho, penaliza o ciclo político de António Costa cujo discurso foi assentando no elogio da recuperação de rendimentos associada a contas certas.

Ricardo Paes Mamede admite que Centeno foi um "trunfo muito importante nas últimas eleições", porém sustenta que o futuro político de António Costa está sobretudo dependente da resposta à crise, até porque o "impacto da economia na gestão orçamental é muito grande".

"Terá mais implicações políticas a forma como o governo vai gerir a equação difícil entre manter a dívida pública controlada e responder a uma crise com dimensões sem precedentes", assegura o economista.

Este professor do ISCTE não embarca em loas ao papel desempenhado por Centeno e considera haver três razões que, conjugados, deram "origem ao mito Centeno, duas delas determinadas pelo contexto internacional e não pelo próprio": Um contexto internacional favorável; capacidade para resistir a pressões e manter uma política orçamental muito restritiva a vários níveis; e a simpatia que a personalidade de Centeno consegue gerar.

Paes Mamede afirma também que o mérito da gestão orçamental tem de ser "repartido com João Leão". No entanto, o ministro indigitado das Finanças não dispõe de "grande capacidade de comunicação", algo que o poderá prejudicar no exercício das novas funções.

"Não é uma pessoa com o dom da palavra nem grande à vontade para comunicar em público e isso pode ser relevante no exercício de uma função em que a comunicação é muito importante", afirma Paes Mamede apontando como exemplo precisamente a declaração hoje feita por João Leão após ser anunciado como próximo responsável pelas Finanças.
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