Fernando  Sobral
Fernando Sobral 29 de julho de 2018 às 20:15

O funeral dos comboios

O sector ferroviário em Portugal foi destruído por sucessivos governos, do PS e do PSD (e CDS), sem que alguém vertesse uma lágrima.

Houve um tempo em que os comboios anunciavam o progresso. Fontes Pereira de Melo, no século XIX, acreditava mesmo nisso. Por isso dizia, empolgado: "O Governo espera, sendo aprovadas estas medidas, que dentro de poucos anos não se diga, como desgraçadamente se diz hoje lá fora, que para cá dos Pirenéus está a África." Para Alexandre Herculano os caminhos-de-ferro traziam uma outra versão do Inferno: a absorção por Espanha. Os comboios iriam uniformizar as ideias e os costumes. Esse debate apaixonado persiste ainda hoje. Foi por isso que, de forma subterrânea, se foi assistindo ao estrangulamento lento e amoral dos caminhos-de-ferro. Fecharam-se linhas, encerraram-se estações, deixou de se fazer investimentos. Tudo de forma calma. Ganhou o mundo das auto-estradas, mais rentável. Mas esqueceu-se, ao longo de décadas, a importância dos caminhos-de-ferro para a mobilidade de quem tem de se deslocar no interior do país e, nos grandes centros urbanos, vive nas periferias. Basta ver os comboios das horas em que o sol ainda não nasceu. E são estes com que a CP acaba. Para que deixem de andar de comboio. E nunca mais voltem a fazê-lo.

 

Na discussão sobre a falência da CP e da Refer tem muitos equívocos. Poderia começar-se por um: a junção da Refer com a Estradas de Portugal para criar esse monstro das bolachas que é a Infraestruturas de Portugal foi o derradeiro passo para atirar os comboios para o cemitério. Só o túnel do Marão ficou a ganhar com isso. A guerra de alecrim e manjerona entre um diletante ministro Pedro Marques e um ovni, o deputado Nuno Melo, é um momento de humor. O sector ferroviário em Portugal foi destruído por sucessivos governos, do PS e do PSD (e CDS), sem que alguém vertesse uma lágrima. Agora chegou-se ao caos: não houve renovação (ou electrificação com fundos comunitários) da via férrea, porque o poder político não quis; o material circulante está a cair de podre e já não há composições nem peças para tapar buracos. O funeral foi feito há muito. E agora há quem esteja admirado. 

 

Grande repórter

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