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Como pode a voz unir um mundo separado?

Talvez seja tempo de prestarmos atenção ao que nos torna humanos: a nossa capacidade de imaginar. Num mundo que ficou ainda mais saturado de imagens, aqui fica uma proposta em contraciclo: teatro radiofónico. A emitir diretamente para as nossas emoções.

Wilson Ledo wilsonledo@negocios.pt 18 de Abril de 2020 às 21:00
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Nos primeiros dias de quarentena, o vídeo tornou-se um suporte de comunicação (ainda mais) recorrente. A imagem como representante dos corpos que não podem estar juntos. Para Cátia Terrinca, houve uma "sobrevalorização" da imagem face a outros sentidos. No fundo, demasiada informação, pouca atenção.


É por isso, mas não só, que a voz ganha protagonismo nesta proposta teatral em tempo de vírus. De 20 a 25 de abril, é preciso estimular a audição para fazer parte do ciclo de teatro radiofónico "Transmissão". "Em parte, nasce como reflexo destes novos tempos. Agudizaram a nossa incapacidade de lidar com o tempo interior", conta Cátia Terrinca, uma das diretoras artísticas do projeto, a par de Vicente Wallenstein.


De voz serena ao telefone, a partir de Elvas, para onde estava previsto um ciclo de teatro - que as novas normas de segurança obrigaram a cancelar. "Este ciclo acaba por ser uma solução de conforto para todas as partes", contextualiza. Para que nenhum dos artistas ficasse sem trabalho ou sozinho, na verdadeira aceção da palavra.


De 20 a 25 de abril são 15 os espetáculos que vão passar por diferentes estações do país, nacionais e locais: Rádio Miúdos, Antena 2, Rádio Oxigénio, RDP África, Mais Rádio, Rádio Elvas ou Antena Livre. Uma proposta bastante diferente nos dias que correm: desligar o computador e ouvir. Uma ideia em contraciclo numa altura em que deixámos a imagem controlar os contornos do outro. "Assusta-me a ilusão de que através do computador estamos mais juntos", explica Cátia.


A voz traz um corpo invisível, permite imaginá-lo, tocá-lo de uma outra forma. Com a voz, constrói-se esse desejo do outro que não conhecemos. E, com o desejo, uma certa ideia de futuro. "Será interessante perceber se as pessoas serão capazes de escutar tanto tempo", reflete a diretora criativa. O ciclo "Transmissão" conta com três seções diferentes, incluindo uma programação para crianças, outra mais generalista e uma última com um caráter mais experimental. A programação - que presta também homenagem ao poeta, ator e encenador Carlos Wallenstein - pode ser consultada aqui, aqui ou aqui.


Numa altura em que a casa passou a ser a nossa partida e o nosso destino, o ciclo "Transmissão" não deixa de fazer pontes com o mundo. Em especial, com Cabo Verde, onde a iniciativa será transmitida pela rádio Morabeza e através de parcerias com criadores deste país africano.


 

Como é montado um espetáculo de teatro radiofónico?

Antes da pandemia, Paulo Lage tinha planeado apresentar um espetáculo para bebés em Elvas. Com o novo contexto e o desafio de Cátia Terrinca para apresentar um projeto de teatro radiofónico, o encenador decidiu preparar um trabalho para crianças acima dos cinco anos.

Depois, foi colocar a memória a funcionar. Há uns anos, em São Paulo, comprou um livro assinado pela atriz Mayana Neiva. "Sofia", assim se chama o conto sobre uma menina faz uma viagem dentro do seu próprio sonho.

 

"Tal como nós que estamos agora confinados, esta menina está presa a um sonho. Mas no nosso caso é realidade", explica Paulo Lage, que nunca tinha feito um espetáculo de teatro radiofónico. Seguiu-se muita pesquisa, aliadas às recordações da infância.

 

Os ensaios, com as atrizes (Cheila Lima e Carolina Branco) que dão voz às personagens, foi feito através de plataformas de videochamada. Porque a voz tem de transmitir emoções, é preciso estar atento às variações e aos tons. Em conjunto, embora cada um nas suas casas, foram apurando.

 
As vozes e os sons (todos naturais) de "Sofia" foram depois gravados. E é aqui que entra em ação a equipa de sonoplastia do "Transmissão", liderada por Diogo Rodrigues, para conseguir juntar tudo e criar o resultado final que vai ser possível escutar.

 
Para refletir a atenção reduzida dos mais novos perante um meio como a rádio, o espetáculo de Paulo Lage dura sete minutos. O encenador olha para ele como uma "oportunidade de encontro entre pais e filhos" e espera que, depois, possam surgir outras atividades em família – mas, acima de tudo, o diálogo.

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