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Cultura: Unidos pelo que é essencial

Se o setor da Cultura sempre soube o que é viver com dificuldade, vê-se agora confrontado com o inimaginável. Entre os artistas e técnicos - impedidos de trabalhar, com salas fechadas e eventos cancelados -, a fome começa a ser uma realidade. E a resistência, por mais bela que seja, não pode ser eterna.

Wilson Ledo wilsonledo@negocios.pt 23 de Maio de 2020 às 13:00
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Primeiro pintaram o Facebook de branco: a cor do vazio, da falta de respostas. Depois criaram uma "hashtag" para que pudessem falar a uma só voz nas redes sociais. O mote é longo, mas deixa claro o propósito do movimento: #unidospelopresenteefuturodaculturaemportugal.


Dentro e fora do setor da Cultura e das Artes, e até no estrangeiro, milhares juntaram-se de forma simbólica: uma fotografia com a "hashtag", para procurar chamar a atenção de quem os artistas mais precisam que os ouça nesta fase de pandemia: o Ministério da Cultura.


Dos 1025 pedidos de ajuda recebidos, só 311 receberam o apoio do fundo de emergência criado para o efeito, com a justificação oficial de que foi dada primazia àqueles que não recebiam ainda qualquer financiamento. Um milhão de euros passou a 1,7 milhões: um valor demasiado curto para tantos que ficaram sem trabalho e sem acesso aos apoios, porque a natureza informal do trabalho artístico os deixou automaticamente desprotegidos. Um valor demasiado curto para todos os que vivem nos bastidores.


A luta, tal como a necessidade, tem-se tornado mais intensa a cada dia. No meio desta crise, há até quem encontre soluções criativas: como lançar uma campanha de recolha de fundos para entregar a Graça Fonseca o valor máximo do apoio a trabalhadores independentes, de 219 euros, e um cabaz de alimentos. E o desafio: seria a ministra da Cultura capaz de viver assim, como eles?


Tem sido a entreajuda entre colegas, associações e instituições do setor a impedir que a fome chegue às casas de muitos destes profissionais. Não chega, quando há poupanças a esgotar-se a cada dia, sem perspetiva de novos trabalhos. E a resistência, por muito dura que seja, também cede ao estômago vazio.


Nesta semana, centenas destes profissionais fizeram questão de sair para a rua, para pedir à ministra da Cultura que responda ao setor que tutela. Artistas de todas as áreas estiveram, de norte a sul do país, a pedir soluções. Inclusive à porta da Assembleia da República, onde muitas outras decisões podem ser forçadas.


O que seria de nós sem cultura? Se os nossos artistas deixassem de pintar, de compor, de escrever, de interpretar, de refletir o mundo? Um povo sem alma, assente nos números que nada justificam. Estes profissionais não são números, mas histórias de vida. Conheça agora cinco delas. Em discurso direto.




RITA GT. 39 ANOS. ARTISTA VISUAL: "Não há um entendimento do que é ser artista ou vontade de diálogo".

"Este é um momento intenso de reflexão, de maturação de ideias e ideais, de preparar mudanças. Estou pronta para lutar por mudanças estruturais e profundas, não só a nível pessoal como a nível coletivo. Os artistas visuais não podem estar reféns das vendas, num país onde quase não há colecionadores.

 

Eu não era elegível para os concursos disfarçados de linha de emergência. Não tenho exposições canceladas, mas sim adiadas. Exposições onde já tenho uma participação precária, sem ‘fee’ nem qualquer valor de produção.

 

Todo o processo de apoio por parte do Ministério da Cultura está a falhar. Não há um entendimento do que é ser artista e, mais grave, não há vontade de saber, vontade de diálogo. Não compreendo como uma ministra da Cultura não percebe o infinito potencial e o poder do setor pelo qual está responsável.

 

Tenho uma amiga que teve covid-19 e, obviamente, nem força teve para pensar num projeto e candidatar-se aos escassos apoios oferecidos. Moro em Viana do Castelo, estou a dar apoio escolar ao meu filho de 10 anos e pouco tempo resta para a minha prática artística, que passa por ler, estudar, escrever, investigar. Honestamente, muitos dos meus desafios já existiam antes da pandemia. A conjuntura atual só veio agudizar esses desafios e dificuldades.

 

A minha prática artística sempre esteve intimamente ligada com o meu envolvente, com um pensamento crítico e reflexivo. Com certeza que a experiência global pela qual todos estamos a passar irá refletir-se no meu trabalho."


 

RUI SPRANGER, 48 ANOS, ATOR, ENCENADOR E DIRETOR DA APURO – ASSOCIAÇÃO CULTURAL E FILANTRÓPICA: "Ainda não estou a passar dificuldades. Mas hei-de lá chegar".

 

"As últimas semanas começaram com um enorme desalento, porque todo o trabalho que tinha e todas as perspetivas de futuro esvaíram-se num ápice. Compreendi que parávamos, não por causa do vírus, mas por um esforço coletivo de dar tempo para o Sistema Nacional de Saúde se preparar. Criei logo um grupo no Facebook, para que a informação circulasse e fazer o levantamento das perdas das pessoas e das medidas tomadas, tentando ajudar a corrigi-las. 

 

Não tenho perspetivas de futuro. É viver um dia de cada vez. Continuo a desenvolver projetos e a pensar em soluções, sempre em diálogo com outros colegas. Candidatei a Apuro ao concurso, mas não foi contemplada. Concurso e Fundo de Emergência são coisas completamente distintas. Bastava o Ministério ter consultado qualquer dicionário básico para perceber isso.

 

Sei de vários colegas em dificuldades. Eu, felizmente, ainda não estou a passar por elas. Graças também a algum apoio que tive de familiares e amigos. Mas hei-de lá chegar. Para já, creio que conseguirei aguentar-me até ao fim de junho."


 

ANA ROCHA, 37 ANOS, PROGRAMADORA CULTURAL: "Um penso rápido não cura uma ferida que é estrutural".

"As últimas semanas foram vividas com a intensidade que este momento nos pede, num absoluto serviço para que alguma coisa significativa realmente se transforme, no sentido de reforçar a extrema necessidade de um plano estratégico para a Cultura e Artes. Acredito numa independência interdependente, numa contaminação positiva e no diálogo, mesmo entre perspetivas e especificidades diferentes. Estamos numa miséria nacional, muita gente sem bens essenciais, em risco de perder o abrigo, sem ter como comprar comida. E está para durar. Temos de estar unidos agora. Este é o momento para não repetirmos os mesmos erros. Não vai ficar tudo bem.

 

Não tenho nenhumas perspetivas de futuro profissional. Tenho sempre trabalhado como independente. Candidatei-me ao fundo de apoio, que sempre existiu no Ministério como uma espécie de ‘fundo de caixa’. Foi um concurso à criação, nada diferente dos anteriores. Como podemos pensar em criar, neste estado de pandemia? O Governo falhou, mais do que o Ministério da Cultura ou Graça Fonseca. O erro e a falha são de fundo. A dança das cadeiras vai repetir-se. E isso não cura. Um penso rápido não cura uma ferida que é estrutural.


A informalidade do trabalho artístico deve ser tornada institucional e estrutural. Este é o momento de se pensar e colocar em prática novas estruturas. Já a minha prática será a mesma: respeito pelo outro, sentido de imparcialidade e de ética para o posicionamento da comunidade. Teremos todos de saber relacionarmo-nos com o vírus, com a invisibilidade. O vírus dos espaços invisíveis. Tenho muitas saudades de dar e receber um abraço."


 

RICARDO TEIXEIRA, 28 ANOS, ATOR E DIRETOR ARTÍSTICO DO COLETIVO SILLYSEASON: "Regressar à normalidade é sinónimo de precariedade".

 

"Os últimos dois meses têm sido de reflexão. Como é que o coletivo poderá sobreviver a tudo isto? Quais são as sequelas? Estes meses de confinamento foram avassaladores para todos. Todos perdemos. Mas continuo a defender que o pensamento nos pode salvar. E o meu trabalho é pensar. Vou continuar a trabalhar.

 

Os SillySeason não se candidataram à linha de emergência, porque já recebemos apoios estatais. Mas a falha vem de trás: falta uma política cultural séria, que nos dignifique a todos. Precisamos também de alguém que nos represente verdadeiramente, que conheça as nossas fragilidades, que comunique connosco e nos ajude a criar condições mínimas de criação e sobrevivência.

 

Conheço pessoas do nosso setor artístico que estão neste momento a viver de ajudas de outros colegas e familiares. Há quem esteja a passar fome. E não estou a falar só de artistas. Falo em técnicos, produtores, gestores que se encontram numa situação de colapso total. É um grito coletivo aflitivo. O setor tem uma oportunidade de rejeitar o regresso à normalidade. Normalidade é sinónimo de precariedade. A fome não tem poesia. Chega de esmolas. É preciso mudança.

 

A nossa companhia lançou uma bolsa de criação para artistas, porque não queremos compactuar com o que se está a passar. Numa situação como esta, todos têm de ter direito a um suporte financeiro. Se numa situação ‘normal’ já é injusto, numa situação de emergência é vergonhoso e imoral. A nossa bolsa não é suficiente. É o possível. Temos recebido dezenas de candidaturas e só vamos conseguir atribuir duas bolsas. É angustiante perceber o pensamento que os artistas estão a tentar perpetuar. Mas o nosso país está a cortar-lhes as bases."


 

RAQUEL ANDRÉ, 34 ANOS, ATRIZ E ENCENADORA: "Até hoje não recebi de nenhum espetáculo cancelado em março, abril e maio".

"Cada dia foi uma novidade. Primeiro os cancelamentos, depois a informação de que não seriam pagos. E aqui começou a luta. E a luta tem sido diária. Apesar da lei que prevê o pagamento dos espetáculos cancelados, até hoje ainda não recebi de nenhum espetáculo que tive cancelado em março, abril e maio.

 

Recebi um apoio da Fundação Calouste Gulbenkian. Com a enorme quantidade de pedidos, recebi 38% do que solicitei. Pergunto-me se não teria sido mais fácil se as estruturas, que já tinham os orçamentos fechados e as atividades programadas, tivessem pago o que já estava contratualizado.

 

O fundo do Ministério da Cultura era afinal um concurso. Deixou de fora muitos profissionais que não têm, necessariamente, um projeto artístico. Porque desenvolvem atividades mais técnicas, por exemplo. Fui informada, de madrugada, que não tinha sido contemplada, apesar de estar elegível. Desde 2018 que não tenho apoio à criação do Ministério da Cultura. Não compreendo o argumento de que deram prioridade a estruturas que não tinham nenhum apoio. Também não nos explicaram os critérios.

 

Neste momento, o que me ocupa é agir para termos uma resposta, uma mudança. Estamos sem futuro, abandonados. Todo o trabalho que tinha para 2020 foi suspenso, cancelado ou adiado. Não consigo ver um futuro no meu percurso profissional se neste momento não existir nenhuma medida do Ministério da Cultura que esteja à altura do que se está a passar.

 

Por mim, tudo parava. Não haveria mais produção artística e cultura enquanto não houvesse uma medida que nos servisse. O Estado falhou, mas acredito que tem a possibilidade de mudar. Antes de tudo, deveria ouvir-nos. Conheço colegas que ficaram sem dinheiro para ir às compras, para pagar as contas. Deixei a minha casa para ir para outra com uma renda mais acessível. Mas não sei como será até ao final do ano…

 

Adoraria aproveitar o tempo de isolamento para produzir pensamento e práticas artísticas. Tem sido muito difícil ter a capacidade para o fazer. A reação a esta crise tem-me ocupado imenso tempo. Tenho chorado, tenho-me irritado e tenho tentado agir. Mesmo que não esteja a passar fome agora, não posso não me envolver com o que está a acontecer. E de agir para uma transformação radical no setor."

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