Mitigar já não basta: a urgência de adaptar Portugal à nova realidade climática
A adaptação não é sinal de desistência na mitigação, mas reconhecimento de que o processo é, em larga medida, irreversível no horizonte das próximas décadas.
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As recentes tempestades que assolaram Portugal, com precipitações intensas, cheias rápidas e danos significativos em infraestruturas e habitações, não são episódios isolados nem meras variações sazonais. São expressão de uma nova realidade meteorológica que se vai consolidando e que exige de nós uma mudança estrutural na forma como pensamos o território, a economia e o próprio modelo de desenvolvimento. Durante décadas, o debate público centrou-se, e bem, na mitigação das alterações climáticas: reduzir emissões, promover energias renováveis, reforçar a eficiência energética. Esse esforço deve continuar. Mas a verdade é que o sistema climático já entrou numa fase de transformação profunda. A temperatura média global aumentou, os oceanos acumulam calor a um ritmo sem precedentes e os fenómenos extremos tornaram-se mais frequentes e intensos. Ignorar esta evidência é persistir numa ilusão perigosa. O aquecimento da água do oceano é um dos fatores mais relevantes nesta equação. O Atlântico Nordeste, que banha a costa portuguesa, regista anomalias térmicas significativas. Oceanos mais quentes significam maior evaporação, mais energia disponível na atmosfera e, consequentemente, tempestades mais intensas. O que antes ocorria de forma episódica tende agora a repetir-se com maior regularidade. Infraestruturas portuárias, zonas ribeirinhas, frentes urbanas costeiras e sistemas de drenagem urbana passam a estar sob pressão crescente.
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