Fernando  Sobral
Fernando Sobral 10 de maio de 2018 às 19:44

O castelo de cartas de Sócrates

A "cultura de corrupção" não começa e acaba em Sócrates. Contaminou Portugal. E anda por aí, como sempre, à solta.

É em "Borgen" ("castelo", em português) que a classe política dinamarquesa vive e tenta sobreviver. É ali que se exercita a teoria de Maquiavel, onde os grão-vizires tentam ser califas, onde os príncipes tentam ser reis. E onde todos os outros poderes tentam demonstrar a sua força. "Borgen" é a alcunha do Palácio de Christianborg, o centro nevrálgico do poder político da Dinamarca. Onde poder e oposição se cruzam, intrigam, traem e buscam o poder. É ali que chega a primeira mulher a tornar-se primeira-ministra da Dinamarca, Birgitte Nyborg (a excelente actriz Sidse Babett Knudsen). No início de cada episódio de "Borgen", há um aforismo que condensa o seu espírito. No último da terceira temporada a frase é de Abraham Lincoln: "Nearly all men can stand adversity, but if you want to test a man’s character, give him power". Esse é o verdadeiro teste: o poder hipnotiza e, muitas vezes, corrompe. Dissolve a moral, desintegra a ética, chamusca a verdade. A frase de Lincoln acaba por ser a síntese de "Borgen": a ascensão, queda e renascimento de Birgitte Nyborg, enquanto troca de aliados e abdica de amigos fiéis. Tudo em nome do Estado e do poder. A ambição política sobrepõe-se a tudo. Mesmo às suas vulnerabilidades humanas.

 

São Bento é o nosso Borgen. E foi ali que José Sócrates construiu o seu castelo de cartas, jogando com os que lhe abriram as portas do poder e com os que se colocaram fielmente atrás de si. Quando julgou ser o Rei Sol, Sócrates construiu a sua Versailles fictícia. Onde a sua corte se instalou. Vê-se hoje, com melancolia, a queda final desse castelo de cartas. Os que mais o defenderam, mordem-lhe os pés. Como se ele tivesse sido David Copperfield e os tivesse hipnotizado como Belas Adormecidas.

 

Em 31 de Outubro de 2006 escrevi neste jornal: "Sócrates, todos o sabem, não prima pela clemência. Ele é eficaz na sua liderança e claro no que quer e para onde vai. É por tudo isso que o PS e o Governo se reconduzem ao que quer fazer. Ele conduz e os outros seguem-no de boca fechada. Porque há receio de abrir a boca sobre as suas ideias. E um líder forte é assim: não admite que outras vozes surjam para colocá-lo em causa. Ou para o questionar sobre o que quer. É por tudo isso que o PS e o Governo são unos, como cola-tudo. PS e Governo juntaram-se. Dificilmente serão separados enquanto Sócrates for líder." Só agora a cola perdeu a força e o sentido. O PS precisava de se libertar deste silêncio, para procurar a sua vida depois de Sócrates. É tarde. E é cómico. Porque vemos defensores caninos de Sócrates a renegarem tudo o que disseram, como se mudar de camisa fosse a coisa mais fácil do mundo. E talvez isso seja, na política.

 

A questão é que o "mundo maravilhoso" de Sócrates que atirou Portugal para o "universo aterrador" de Passos Coelho, é apenas a ponta do "iceberg" das cumplicidades que extirpam o país da parca riqueza que consegue criar. A "cultura de corrupção" não começa e acaba em Sócrates. Contaminou Portugal. E anda por aí, como sempre, à solta.

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