pixel

Negócios: Cotações, Mercados, Economia, Empresas

Notícias em Destaque
José Crespo de Carvalho - Dean do Iscte Executive Education
21:17

A universidade sem IA será irrelevante

Temos a oportunidade única de usar a IA para elevar a fasquia e reduzir tempo em muito do que fazíamos anteriormente. O que antes levava dias passa agora a levar horas. O que levava horas passa agora a levar minutos. Ótimo. Mas só será ótimo se esse ganho de tempo for usado para pensar melhor, questionar mais, decidir com mais qualidade e elevar a exigência.

A inteligência artificial não é uma revolução dita normal. Não é mais uma tecnologia ou uma app ou um software. Aliás, cada vez mais se percebe que não é uma tecnologia, mas, antes, uma nova estrutura empresarial (para já não dizer individual). Não é um apoio pedagógico a todos quantos se interessam por ensino. É, efetivamente, uma rutura. E as universidades que insistirem em tratá-la como apoio ou suplemento estarão, na prática, a escolher o caminho da irrelevância.

Para já não devemos sequer perguntar-nos se a IA já entrou no ensino superior. Entrou, ponto. Já produz, resume, organiza, compara, escreve, propõe, calcula e responde. Ou seja, faz a maioria. A verdadeira questão é outra: devemos usar esta revolução para elevar a exigência intelectual, e evoluirmos intelectualmente, ou vamos aproveitá-la para desistir de pensar?

É aqui que tudo se vai decidir. Esta questão pode ser o ‘make or break’ das universidades.

A meu ver, o futuro da universidade exige três ruturas claras.

A primeira é lecionar do fim para o princípio. Durante demasiado tempo ensinámos de forma linear: teoria, desenvolvimento de conceitos, enquadramento e contexto, aplicação, problemas e casos, finalmente, resultados. O que a IA está a fazer é devolver-nos o resultado em segundos. Muito bem, então comecemos precisamente pelo resultado. Olhemos e analisemos o 'output'. E, a partir dele, desmontemos o racional, testemos a consistência, avaliemos os pressupostos, procuremos falhas, identifiquemos enviesamentos, reconstruamos o raciocínio. Isto não diminui a academia. Obriga-a, penso eu, a subir a um novo patamar. O valor já não está em chegar à resposta. Está em saber se a resposta importa. E se importa, porque importa e a quem importa e o que lhe está subjacente, ‘upstream’.

A segunda rutura é a cocriação. Menos monólogo. Redução da pseudopassagem de conhecimento. Minimização das aulas assentes na confortável ilusão de que ensinar é despejar matéria. Mais debate. Elevação da construção conjunta. Trabalho árduo de confronto de ideias. Soluções criadas com os participantes.

A universidade não pode continuar a ser um espaço de receção passiva de conteúdos e de repetição de slides de uns anos para outros. Tem de ser um espaço de tensão intelectual séria, onde docentes e estudantes trabalham com IA, mas sem se deixarem, deliberadamente, vergar a ela. A máquina acelera. Os humanos interpretam, duvidam, escolhem e decidem. E decidir continuará a ser profundamente humano.

A terceira rutura está na avaliação. Devemos diminuir os trabalhos de pesquisa convencionais e introduzir mais desafios exigentes. Minimizar textos previsíveis e querer mais provas reais de pensamento. Abdicar da facilidade académica para darmos lugar a mais critério. Insistir em avaliações que a IA consegue replicar em minutos é fazer de conta que nada mudou. E, no entanto, já tudo mudou. Avaliar, daqui para a frente, tem de significar colocar problemas difíceis, pedir decisão fundamentada, testar raciocínios, exigir defesas orais, adaptar, reformular e ter a coragem para sustentar posições, desafiando-se.

Há, porém, uma questão ainda mais profunda. Temos de dar a mão à IA. Sim. Sem medo e sem ingenuidade. Aceitar a revolução como a revolução que é. Isto implica muito trabalho nesta fase de transição, mas tem de se aceitar, igualmente, que a IA vai pôr em causa algo absolutamente decisivo: a nossa vontade de continuarmos a ser seres pensantes.

Esta escolha, para todos os efeitos, é nossa. E ao escolhermos estudar fazemo-lo para continuarmos a pensar e aperfeiçoarmos este mesmo pensamento.

Ou seja, temos a oportunidade única de usar a IA para elevar a fasquia e reduzir tempo em muito do que fazíamos anteriormente. O que antes levava dias passa agora a levar horas. O que levava horas passa agora a levar minutos. Ótimo. Mas só será ótimo se esse ganho de tempo for usado para pensar melhor, questionar mais, decidir com mais qualidade e elevar a exigência. Se, pelo contrário, usarmos a IA para externalizar a reflexão, para simplificar o pensamento e para abdicar de saber fazer estaremos, então e apenas, a trocar inteligência, raciocínio e pensamento por comodidade. Por facilitismo.

Nesse dia o ensino servirá para muito pouco. Ou para nada.

Eu acredito no contrário. Acredito que o ensino serve, agora mais do que nunca, para ensinar a pensar, a estruturar, a decidir, a orientar e a autonomizar precisamente a partir dos ‘outputs’ da IA. O trabalho vai mudar radicalmente. O ensino também. Ninguém minimamente sério pode duvidar disto, mas o que aí vem pode ser melhor. Muito melhor. Desde que a universidade não confunda progresso com preguiça intelectual. E desde que não entreguemos à máquina aquilo que nos define: pensamento crítico, exigência, discernimento e coragem para contrariar.

Um dos grandes riscos que corremos ao deixar que alguém pense por nós é tornarmo-nos todos iguais. E ao torarmo-nos iguais tornamo-nos irrelevantes. Cabe à universidade combater esta irrelevância. Começando por si própria e percebendo que o que importa é trazer a IA para dentro dela. De forma apropriada.

Ver comentários
Ver mais
Publicidade

C-Studio é a marca que representa a área de Conteúdos Patrocinados do universo Medialivre.
Aqui as marcas podem contar as suas histórias e experiências.

Publicidade

C-Studio é a marca que representa a área de Conteúdos Patrocinados do universo Medialivre.
Aqui as marcas podem contar as suas histórias e experiências.

Publicidade

C-Studio é a marca que representa a área de Conteúdos Patrocinados do universo Medialivre.
Aqui as marcas podem contar as suas histórias e experiências.