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António Moita 02 de Março de 2020 às 11:15

Quando um espirro abala o mundo 

A existência de uma pandemia provocada por um vírus não é negligenciável e merece toda a atenção e cuidado seja por parte dos cidadãos, da comunidade científica ou dos governos.

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Muito se tem escrito sobre a matéria, havendo até quem tenha previsto com notável precisão a ocorrência deste episódio em romances publicados há algumas décadas. A indústria da comunicação vive de boas histórias e esta é, sem dúvida, uma daquelas que tem condições para ser alimentada diariamente e por muito tempo.

 

Não quero de forma alguma desvalorizar os dramas humanos de todos aqueles que foram contagiados, especialmente dos que morreram. Nem tão-pouco negar a importância de medidas preventivas tomadas pelos diferentes governos para impedir o alastramento da doença. Mas importa referir que os efeitos que esta crise sanitária está a ter na economia global são de uma enorme gravidade, provocando danos irreparáveis e claramente desproporcionados face à realidade que lhe deu origem.

 

A economia vive ciclos em que os períodos de crescimento e a prosperidade se sucedem a outros marcados pela recessão ou pela estagnação. A sua duração nem sempre é explicada com racionalidade ou encontra fundamento na atividade económica. Muitas vezes são as expetativas do mercado que condicionam a sua evolução ou a ocorrência de factos não previstos que a determinam. Uma intervenção militar, um ato terrorista, uma guerra comercial entre potências, a ocorrência de uma catástrofe natural ou de uma crise sanitária global em animais ou em seres humanos, são exemplos de causas que têm condições para provocar um abalo muito forte nos principais alicerces da economia mundial.

 

Algumas evidências sobre a globalização estão agora à vista de todos. A inexistência de fronteiras e a velocidade incontrolável a que circula a informação aí estão. O foco das empresas e dos empresários, em especial das multinacionais, numa gestão orientada para a maximização dos recursos e do lucro acentuou a dependência das regiões do mundo que propiciam condições de preço mais vantajosas independentemente da forma como o conseguem.

 

Estamos a viver, depois da crise do subprime em finais de 2007, um prolongado ciclo de crescimento económico sendo evidente a valorização dos índices bolsistas, o desenvolvimento do setor do transporte aéreo e do turismo, a reconfiguração dos modelos de negócio sobre ativos imobiliários, a proliferação de fundos de investimento que dispersam o capital por todo o lado, o continuado aumento do consumo com recurso ao crédito agora mais rápido ainda devido às transações eletrónicas online, e tantas outras manifestações de prosperidade que aqui poderia referir. Apesar da repetição de múltiplos erros cometidos no passado, a ganância humana parece não ter limites. Defendem alguns, pelo menos desde 2017, que nova crise económica global se adivinhava e que o mundo parecia não se querer preparar para o que aí vinha. O certo é que, com maior ou menor arrefecimento pontual, as economias foram registando progressos assinaláveis e o equilíbrio global não tem sido ameaçado.

 

Não pretendo sugerir que a crise do coronavírus e os desproporcionados efeitos que está e continuará a ter sobre a economia global foram preparados para "limpar" o sistema e dar inicio a um novo ciclo. Mas a verdade é que ficou bem evidente, para quem ainda tinha dúvidas, que vivemos num mundo cada vez mais frágil, inseguro e exposto a riscos que verdadeiramente ninguém prevê, monitoriza ou controla.

 

Jurista

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