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Trump contraiu covid. O que tem a ganhar e a perder?

O presidente e a primeira-dama dos Estados Unidos testaram positivo ao novo coronavírus, tornando ainda mais incerta uma campanha eleitoral que decorre em águas nunca navegadas. Donald Trump pode beneficiar do facto de ter contraído covid-19, mas também pode ser prejudicado.

EPA
David Santiago dsantiago@negocios.pt 02 de Outubro de 2020 às 17:17
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Donald Trump é o mais recente líder mundial, depois do britânico Boris Johnson e do brasileiro Jair Bolsonaro, que após desvalorizar a gravidade e os riscos associados ao novo coronavírus acaba por contrair a covid-19.  Trump, assim como a primeira-dama, Melania Trump, testaram positivo e vão cumprir um período de isolamento na Casa Branca.

A notícia surge a um mês e um dia das eleições presidenciais de 3 de novembro e aparece já em plena campanha eleitoral e depois do primeiro frente a frente entre Trump e o rival democrata, Joe Biden.

Tem um certo lado de ironia o facto de Trump ter testado positivo após vários meses em que não só ignorou as recomendações das agências de saúde como incumpriu orgulhosamente o apelo ao uso de máscara e desrespeitou as regras de distanciamento social.

Com 74 anos de idade, o atual presidente americano integra um grupo de elevado risco – das mais de 200 mil mortes por covid registadas nos EUA, oito em cada dez dizem respeito a pessoas com mais de 65 anos – fator que adensa ainda mais a incerteza relativamente às consequências da infeção.

Medir os efeitos políticos desta nova realidade é uma tarefa complexa, sobretudo até que seja conhecido um prognóstico mais concreto, sendo que para já Trump revela apenas "sintomas ligeiros". E apesar de Sean Conley, médico de Trump, garantir que o presidente "continuará a cumprir os seus deveres" enquanto chefe de Estado, o médico Ashish Jha, citado pela Time, lembra que esta "é uma infeção séria, especialmente para alguém mais velho como é o caso do sr. Trump".

Certo é que o teste positivo do presidente americano representa mais um fator de incerteza e confusão na mais incerta e confusa eleição presidencial americana de que há memória. É que, além da crise pandémica, os Estados Unidos atravessam um período de enorme instabilidade social decorrente dos protestos anti-racismo espoletados pelo assassinato do afro-americano George Floyd.

Juntam-se ainda os graves incêndios que há várias semanas mantêm o oeste do país, particularmente a Califórnia, em constante estado de alerta.

Apresenta-se também como um dado seguro que Donald Trump possa ser penalizado por ter sido infetado por um vírus que além de ter sido desvalorizado por si próprio foi desastrosamente gerido pela sua Administração. No entanto, há também elementos positivos para as aspirações do recandidato a presidente.

Pontos negativos para Trump

O primeiro aspeto desfavorável consiste na ausência forçada das ações de campanha a que Trump estará obrigado e que seguramente o impedirá de visitar vários dos chamados "swing states", os mais determinantes para o resultado final, incluindo as já canceladas viagens ao Wisconsin, Nevada e Pensilvânia.  

Donald Trump não abdicara da realização de comícios com milhares de pessoas, amiúde sem que as regras de distanciamento fossem cumpridas, e é mais galvanizador do que Biden – cuja campanha tem sido muito mais minimalista e distante de grandes ajuntamentos -, pelo que agora perde, ainda que por um período limitado de tempo, essa vantagem.

Cria ainda problemas logísticos e de gestão de pessoal à equipa de campanha e dificulta as ações de angariação de fundos. Depois de a campanha de Biden ter atingido em setembro um recorde mensal de angariação de dinheiro, Trump precisa correr atrás do prejuízo e a sua equipa apostava forte em eventos de angariação presenciais. Com Trump em isolamento, será ainda mais difícil recuperar essa desvantagem.

Além de que as atenções mediáticas estarão agora essencialmente centradas na saúde de Trump, o que tende a reduzir a sua capacidade para recuperar os cerca de seis pontos percentuais de desvantagem para Biden que regista nas sondagens nacionais.

Isto porque, como escreve a Bloomberg, o presidente pretendia agora capitalizar eleitoralmente questões como a sua escolha para o Supremo, a recuperação económica em curso ou a necessidade de assegurar "lei e ordem" num contexto de distúrbios sociais. Os eleitores estarão ainda mais atentos a uma pandemia que, segundo os estudos de opinião, consideram ter sido mal gerida pelo presidente.

Por outro lado, é agora incerta a participação no segundo de três debates com Biden, agendado para 15 de outubro. Dada a desvantagem para o democrata, Trump aposta forte nas suas prestações nos debates para se aproximar nas sondagens.

A forma como Donald Trump menosprezou Biden durante o debate desta semana – "não uso máscaras como ele. Sempre que o vemos, tem uma máscara" – devido às precauções do antigo vice-presidente também poderá jogar contra ele.

O presidente tem defendido a necessidade de manter a economia a funcionar e pressionado no sentido do pleno regresso ao trabalho e à escola. Ao verem o detentor do mais relevante cargo político mundial infetado pelo coronavírus, os americanos poderão ficar menos propensos a um regresso à normalidade.

E dado que Trump sempre cultivou a imagem de homem forte e enérgico, designadamente em comparação com Biden, qualquer fragilidade que possa sentir na superação da doença poderá afetar negativamente a forma como o seu eleitorado o vê.

Pontos positivos para Trump

Há contudo fatores que poderão beneficiar as aspirações de Trump à reeleição. É que o até aqui cauteloso Biden (77 anos) deverá retrair-se ainda mais nas ações de rua.

O primeiro-ministro britânico, Boris Johnson, e o presidente brasileiro, Jair Bolsonaro, também negligenciaram a gravidade da covid-19 e acabaram infetados, sendo que reforçaram a respetiva popularidade depois de testarem positivo. Esse efeito pode ser replicado no caso de Trump, principalmente se o presidente americano recuperar rápida e facilmente da doença.

E a história mostra que os eleitores costumam premiar presidentes fragilizados por razões de saúde. Por exemplo, depois de quase morrer numa tentativa de assassinato em 1981, Ronald Reagan foi reeleito em 1984. Note-se ainda que Franklin Roosevelt é o presidente da história com mais vitórias em eleições presidenciais (não havia ainda limite de dois mandatos), em 1932, 1936, 1940 e 1944.

Trump com covid influencia Biden

Não será apenas Donald Trump a sentir repercussões pela infeção pelo coronavírus. Também Joe Biden terá de fazer ajustamentos.

O antigo número dois de Barack Obama terá, desde logo, de decidir se cumpre um período de quarentena pois aquando do debate realizado a 30 de setembro Trump já estaria infetado.

Terá ainda de decidir como abordar a questão, precisando medir bem as palavras, pois críticas duras contra um Trump doente poderá ser contraproducente e ser mal visto pelos eleitores. Ou seja, precisará encontrar um equilíbrio entre legítimas críticas à má gestão da pandemia feita por Trump e o cuidado de não ser excessivamente crítico para alguém que enfrenta uma grave doença.

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